Por Ricardo Kutschinsky Bastos*
A pandemia imposta pela Covid-19 trouxe para a sociedade mundial uma situação extremamente desafiadora, que mudou a rotina de —ouso dizer— todos. As adequações que fizemos para tentar nos proteger dessa doença passaram por todos os âmbitos da vida.
Na área da educação não foi diferente. Escolas fecharam suas portas e necessariamente começaram um processo improvável: a chamada educação remota. Mesmo sabendo que os eletrônicos já eram amplamente utilizados por uma parte dos estudantes e professores, não estávamos preparados para uma transição tão drástica.
Até mesmo dentro da modalidade “EaD” (Educação à distância), visto pela ótica do nosso país, que se encontrava em exponencial crescimento, ainda nos faltava algum tempo para que nos sentíssemos seguros com tantas novidades.
Sendo assim, essa nova e única opção para continuarmos o processo de ensino-aprendizagem enfrenta grandes problemáticas no que diz respeito a questão da equidade. Boa parte dos alunos não possuem sequer condições mínimas de subsistência, que dirá um bom computador e internet.
Algumas comunidades conseguiram tomar atitudes lindas e altruístas, como por exemplo fornecer material impresso e merenda para que os pais fossem buscar nas dependências escolares. Com certeza uma maneira mitigadora para tanto prejuízo. Foram difundidas várias matérias e artigos sobre esse assunto na mídia nacional e internacional, o que se demonstra necessário para que possamos dar atenção para isso. Não resolve todo o problema, mas falar sobre é fundamental.
Contudo, a educação especial vem amargando um certo esquecimento por parte dos noticiários e fontes de informação. A classe que trabalha com inclusão e que faz parte dela se viu engolida com tudo isso, mais do que já era. Nos vemos em uma caminhada lenta de um processo historicamente recente, mas que dava seus passos em busca de resultados. Com esse turbilhão de transformações, regredimos.
Claro que é importante notar que uma prioridade se colocou em destaque: a saúde de todos. Reconhecer que precisávamos focar nisso é uma maneira de não projetar a ausência de empatia encarada pelas pessoas com necessidades especiais. No entanto, chegou a hora de falarmos sobre isso.
Como está a vida do aluno especial? Como está o trabalho do professor de educação inclusiva? As escolas que atendem esse público estavam preparadas até 2019? E agora, como estão? As famílias que possuem essa condição estão lidando bem com isso? Como será a readaptação dos docentes e discentes assim que as coisas voltarem ao sistema antigamente habitual? Como sociedade, o que podemos fazer?
Infinitos questionamentos podem surgir quando olhamos mais de perto para isso e eles não servem para que os respondamos de pronto, o objetivo é para que possamos refletir sobre. Dar atenção para todas essas dúvidas trazem ainda mais inquietação. Mas a zona de conforto não leva a evolução, não trabalhamos para ficarmos à margem.
Educação em sua totalidade traz à luz o conhecimento para quem a desfruta. A garantia de que todos tenham acesso a ela é a base para a construção de uma nação mais justa, equilibrada e, acima de tudo, feliz.
A função do Educador Especial é assegurar que os seus alunos sejam vistos como pessoas, não como números. Cada um possui especificidades únicas, que vão além do diagnóstico médico que a sua limitação é classificada. E só sabe quais são elas o profissional que desse dever se apropria, fugindo do resultado estético que brilha somente com o diploma em mãos. Ele vai além, despreocupado com o tempo do fim, mas de olho no processo do agora.
Isto posto, o aluno respaldado dentro de todas as vertentes que merece e possui por direito, cuidado através de um trabalho essencialmente vocacional, galga na direção de valores, moral, ética e, por último, instrução técnica de qualidade.
* Ricardo Kutschinsky Bastos é pedagogo, biólogo, ator, neuropsicopedagogo, pós-graduado em Educação Ambiental, especialista em Ética na Escola, mestrando em Educação. Atua na AME como Agente Educacional de Inclusão
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